Dica de Leitura: Histórias do Meio do Mundo – Julianne Veiga.

Hoje conheceremos melhor a autora Julianne Veiga e seu livro Histórias do Meio do Mundo.

Por Evelyn Ruani 06/09/2021 - 08:08 hs

Hoje conheceremos melhor a autora Julianne Veiga e seu livro Histórias do Meio do Mundo. Julianne Veiga nasceu em dezembro de 1957, na cidade de Goiás, onde voltou a residir  no final de 2010. É casada, mãe de três filhos e avó quatro vezes. Aguarda para dezembro a chegada de mais uma neta. Bacharel em Comunicação Social e Direito pela UFG, tem contos e crônicas publicadas pela Gueto, revista online de literatura. Participou das coletâneas Literatura Goyas - Antologia 2015, Ed Livres Pensadores, e Histórias de ternura, Ed Kelps, 2015. Histórias do Meio do Mundo é seu livro de contos de estreia, publicado pela Editora Patuá, em março de 2021.

Vem comigo conhecer um pouco mais dessa autora:

Como a literatura entrou em sua vida?

Sempre gostei de ler. A leitura nos leva a fazer experiências impensadas, a ver o mundo pelo olhar do outro, a visitar lugares diferentes, a viver situações novas e a conhecer verticalmente variados tipos humanos. Assim, foi como leitora que a literatura entrou em minha vida.Muito depois, aposentada, senti vontade de escrever de forma livre. Fui me reorganizando, me reinventando, melhor dizendo. Comecei escrevendo sobre o que me trazia a memória espontânea até ganhar confiança e ousar. Hoje, percebo, tenho lido menos depois que passei a escrever mais. No entanto, a leitora e a escritora convivem bem e dividem o tempo com harmonia, deixando, inclusive, sobrar espaço para que a bordadeira também se expresse.

Como é sua rotina para escrever? Você tem alguma rotina para escrever, alguma disciplina, um horário determinado ou escreve quando surge oportunidade?

Não tenho tido uma rotina de escrita, seguindo um horário e local determinados. Uso mais o tablet, o que facilita para que eu escreva em qualquer lugar e momento. No entanto, durante a escrita gosto de estar só para que tudo flua sem apartes. No início, procurei criar uma rotina diária de escrita, até, provavelmente, para dar sequência àquela de antes, técnico/profissional, com a qual estava acostumada. Acabei por abandonar este hábito, talvez, como uma espécie de rebeldia inútil. Acredito que será bom reativar o propósito.

Quanto tempo demora para concluir um livro?

Não sei fazer esta avaliação porque ainda não vivi a experiência de me dedicar a escrever um livro. Como relatei, comecei a escrever de forma espontânea, num mero exercício de escrita. Escrevia, e ainda escrevo, porque a escrita se impõe a mim como um tipo de necessidade. Eu, que sempre tinha estado profissionalmente em convivência constante com as palavras, não soube, nem quis, me apartar delas quando me aposentei. Fui escrevendo memórias, crônicas, ensaios, contos e alguma poesia. Tudo se intercalando sem critério de classificação e prioridade. Tenho pensado em um livro que subverta a ordem de gênero específico e misture em seu corpo gráfico/estrutural os diversos tipos de prosa e poesia. Não sei, contudo, se farei isto.

As histórias “se escrevem” sozinhas ou você pensa na trama inteira?

As histórias meio que “se escrevem” sozinhas. No caso dos contos, traço mentalmente um esboço geral da trama, que nem sempre é obedecido. Quando começo a escrita, permito que as palavras se encadeiem livres. Deixo que as palavras, fortes nelas mesmas, conduzam a narrativa. O mesmo se dá com as memórias. No caso das crônicas e ensaios é muito mais difícil assumir qualquer espécie de governo sobre a escrita.

De onde vem a inspiração?

De fatos que instigam. De alguém conhecido ou do desconhecido observado na rua. De alguma indignação. De uma situação vivida ou da reunião das vividas por muitos. Pode vir num devaneio, descanso, tormento ou de uma alegria. Tudo na vida pode ser inspirador. Toda pessoa tem uma história importante. As que me interessam em demasia são as que nascem do cotidiano da gente simples e, em particular, do das mulheres.

Quais são seus livros e autores/autores favoritos?

Tenho preferência pelos autores de língua latina. Vou me limitar a mencionar alguns latinos e brasileiros, entre eles goianos, meus conterrâneos. Gosto demais de Saramago. Destaco dele os Ensaio sobre a cegueira, pela pertinência temática com o Brasil de hoje. Memória do fogo, de Eduardo Galeano, lido por último. Érico Veríssimo, Incidente em Antares. Sérgio Sant'Anna, O vôo da madrugada. De Laurentino Gomes, Escravidão I. Poesia completa, de Manoel de Barros. Torto arado, de Itamar Vieira Jr. Cartas à rainha louca, de Maria Valéria Rezende. José J Veiga, A hora dos ruminantes. Chegou o governador, Bernardo Elis. Rondó, livros de contos recém lançado por Sonia Sant'Anna. Todos de Cora Coralina. Toda poesia de Marcos Caiado.

Tem planos para livros futuros?

Sei que não vou me apartar da escrita. Escrever é parte de minha parte essencial. É atividade componente do ser que sou. É uma necessidade e um gosto. Tomara que deste meu processo de existência resulte um novo livro. Se acontecer, será outra grande alegria para mim, como está sendo esta agora que me foi trazida pelo Histórias do meio do mundo, meu livro de contos lançado pela Editora Patuá, em maio deste ano de 2021.

RESENHA DO LIVRO

Este é o livro de estreia da autora Julianne Veiga e meu primeiro contato com sua escrita. Julianne nos apresenta, através de uma narrativa madura e que me cativou já nas primeiras frases, histórias de mulheres em suas lutas diárias, cada uma com sua batalha interna ou externa e que nos reflete em muitos momentos.

"Os escritos meio que nasceram por si sós. Filhos deles mesmos, é o que são. Surgiram da necessidade, que em mim não cessa, de lidar com a autonomia desmedia das palavras, de sorver a magia transformadora que é delas a essência".

Dentre ótimos contos, destaco um em especial chamado Jandira que me emocionou muito. Nele conta-se a história de uma mulher, que são tantas, que foi "dada" à avó do dono da casa onde vivia. Não sabia sua idade, onde e quando nascera e lembrava-se vagamente dos pais. Nessa casa, onde era tratada como "parte da família", aprendeu a fazer tudo como cada um gostava, na base da impaciência e dos castigos físicos.

"Trabalho delicado não aprendeu, não lhe foi ensinado. Ler, escrever e fazer conta, também não, quis, mas os inacabáveis afazeres domésticos não permitiam. Disseram-lhe que isso de aprender a bordar, ler, escrever e contar não é mesmo coisa para todo mundo".

Nunca teve casa, morava nas das pessoas da família, quando era necessária. Como "parte da família", apesar de não fazer as refeições à mesa com eles, não tinha salário, era de casa. Essa história me emocionou ao imaginar quantas mulheres tiverem o mesmo destino de Jandira, quantas histórias apagadas, jogadas num quarto de fundo sem início, meio e fim. Vivendo de pedaços escassos da história de outras pessoas.

Por fim, "o fato é que Jandira, a que nunca existiu, só com muita dificuldade aceitou para si a personagem para ela criada pela conveniente hipocrisia".

Mantendo essa qualidade narrativa em todos os contos, cada um deles nos traz uma reflexão importante e aflora em nós pensamentos e sentimentos adormecidos e muito necessários. Ainda destaco os contos: Cartas pela Web, Disfarces Ocultos e Parte Bicho.

Recomendo conhecer a obra e a narrativa desta autora.

 

Para maiores informações sobre a autora e suas obras:

 

JULIANNE VEIGA

Instagram: @juliannevjj

Facebook: Julianne Veiga Escritora