O DESPERTAR PARA A CULTURA: UM ENSINO MILITANTE

Por Luis Carlos Gonçalves 01/08/2019 - 13:36 hs

O artigo “Direito ao acesso, manifestação, difusão e proteção da Cultura”, publicado na edição anterior, partiu do objetivo de lançar um olhar para tais direitos através da análise de livros e artigos científicos. Fechei o artigo com a seguinte questão: é cultural a falta de interesse pela Cultura? Muito embora venha a utilizar como referência uma pesquisa de quase uma década passada, uma vez que não tenha encontrado nada parecido realizado mais recentemente, a consultoria J.Leiva Cultura & Esporte, em parceira com o Datafolha e a Fundação Getúlio Vargas, em pesquisa publicada em 2010 acerca da inserção cultural dos paulistas, aponta que o baixo índice cultural está ligado principalmente pela falta de interesse das pessoas e não pela falta de dinheiro, como poderia se pressupor.

Consequentemente a isso, ousa-se afirmar que é preciso, então, ensinar Cultura. Ensinar como compreendido em sua raiz etimológica (do latim - “insignare”), é o ato de imprimir ou deixar uma marca. Ao se imprimir uma marca, torna-se hábito. Trabalhando com a perspectiva de que se interessar por Cultura é algo positivo, assim, desenvolve-se um bom hábito. Em geral, só se começa a entender que algo é importante quando outro mostra. Fechados nos próprios mundos, há a tendência de se girar em torno do que já é sabido, experimentado, vivido. Estagna-se.

Ao que indica, tudo deva começar a partir das próprias pessoas diretamente envolvidas na questão: os agentes culturais. É daí que se inicia a constatação de que a falta de interesse pela Cultura deve ser encarada como um problema a ser solucionado.

Para este ato pedagógico, não se refere de “bate-pronto” ao ensinamento de técnicas ou mesmo da economia ou da sociologia da Cultura, por exemplo. Estes são temas posteriores, quando já há um grau mais elevado de despertamento e, portanto, de interesse. Trata-se, antes de tudo, de conhecer com quem se está lidando e o para o que. Nessa dimensão, toma-se emprestado da Filosofia da Educação três questões fundamentais, quais sejam: Quem é o educando, no caso, este que não tem interesse pela Cultura? Para qual projeto de sociedade se pretende ensinar Cultura? E como se está fazendo isso?

Além de pedagógico, o trabalho de despertar outras pessoas para a Cultura é também um ofício militante, de construção de mundos possíveis, sensibilizando para esta temática, com o objetivo de engajamento para que se concretizem soluções.

A lógica é a seguinte: se a sociedade que está aí aparenta não se interessar pela Cultura e se me interesso pela Cultura porque acredito que seja um bom hábito, apesar das minhas deficiências, dificuldades e limitações, as marcas que estou imprimindo são para mudar a sociedade que está aí para que um dia ela se interesse pela Cultura?

Abre-se outra questão para outro artigo, por que se interessar por Cultura e desejar que todos se interessem?