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Sumaré,11/08/2026

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O perigo tem cara conhecida

O perigo tem cara conhecida

Nestasemana, o Brasil celebrou o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à ExploraçãoSexual de Crianças e Adolescentes. Celebrou. A palavra já incomoda. Porque nãohá o que celebrar quando, 26 anos depois da lei e mais de cinco décadas após ocrime que deu origem à data, o país ainda precisa lembrar que criança não éalvo.


O 18de maio nasceu de uma ferida que nunca cicatrizou. Em 1973, Araceli, oito anos,foi sequestrada, drogada, estuprada e assassinada no Espírito Santo. Seusagressores eram filhos de família tradicional. Gente conhecida. Genterespeitada. E o crime ficou impune. A data foi criada para que o Brasil nãoesquecesse. Mas o Brasil tem uma habilidade cruel de lembrar um dia por ano eesquecer os outros trezentos e sessenta e quatro.


Comomãe, eu sei o que é ensinar uma criança a se proteger do estranho. Ensinamosdesde cedo: não fale com desconhecido, não aceite presente de quem não conhece,grite se alguém se aproximar. Construímos uma narrativa de perigo que apontasempre para fora. Para a rua. Para o outro. Mas os dados contam uma históriadiferente e muito mais terrível. Pesquisas do Ministério da Saúde indicam que amaioria dos casos de abuso sexual infantil é cometida por pessoas do círculo deconfiança da criança, dentro da própria casa ou da família próxima. O perigo,na maior parte das vezes, não vem de fora. Ele já está sentado à mesa dojantar.


Eaqui está o nó que a sociedade se recusa a desfazer: protegemos a imagem dafamília mais do que protegemos a criança dentro dela. Quando uma criança tentafalar, o primeiro instinto de muitos adultos é duvidar. Relativizar. Perguntarse ela não entendeu errado. Porque acreditar nela significa enfrentar o tioquerido, o padrasto camarada ou o amigo de confiança. Significa rasgar o tecidode uma relação que o adulto não quer perder. E a criança aprende, cedo demais,que sua verdade vale menos do que o conforto dos mais velhos.


Crescersem ser ouvida não é apenas uma falha emocional. É uma falha de proteção. Éonde o abuso encontra seu abrigo mais seguro: no silêncio que os adultosconstroem ao redor da criança para não precisar agir.


Comolíder comunitária, vejo isso de perto. Vejo mães que sabem e não denunciam pormedo, dependência ou vergonha. Vejo instituições que acolhem a denúncia comburocracia e devolvem a criança para o mesmo ambiente. Vejo um sistema deproteção que, muitas vezes, protege mais o agressor do que a vítima, porque oagressor tem voz, tem história, tem advogado. A criança tem só a palavra.


Umadata no calendário não muda isso. Muda quando o adulto decide que acreditar nacriança não é opção: é obrigação. Muda quando a escola, a vizinhança e acomunidade entendem que silêncio não é neutralidade. É cumplicidade.

Aracelitinha oito anos e ninguém a salvou. Quantas crianças, hoje, estão tentandofalar e encontrando ao redor só adultos que preferem não ouvir?





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