Da Ucrânia à Suíça: bailarina transforma perdas e recomeços em inspiração por meio da dança
Professora de dança do ventre, Natalie Bellydance Show construiu uma trajetória marcada por guerras, perdas pessoais e mudanças de país, encontrando na arte uma forma de reconstruir a própria vida e aproximar mulheres
A dança do ventre acompanha Natalie Bellydance Show há anos e se tornou muito mais do que uma atividade artística. Em sua trajetória, a dança esteve presente em momentos de felicidade, mudanças, perdas e recomeços, funcionando como uma forma de expressão e também como fonte de energia para seguir em frente.
Antes de deixar a Ucrânia, Natalie levava uma vida estável em Donetsk. Tinha seu próprio negócio, estava noiva e fazia parte de uma equipe de dança. A rotina, porém, foi interrompida pelo conflito que atingiu a região. Com a guerra, perdeu o negócio, deixou sua casa e precisou reconstruir a vida praticamente do zero.
Nesse mesmo período, enfrentou outra perda. Seu noivo foi diagnosticado com câncer e morreu cerca de um ano depois. As duas situações fizeram com que Natalie precisasse lidar, ao mesmo tempo, com a perda de pessoas, patrimônio e planos que havia construído para o futuro.
Um novo começo às margens do Mar Negro
Depois de deixar Donetsk, Natalie se mudou para uma cidade ucraniana localizada às margens do Mar Negro, onde viveu por aproximadamente sete anos.
Foi também nesse período que começou a trabalhar em navios de cruzeiro. A experiência anterior como proprietária de um bar e bartender ajudou na nova atividade. Durante os contratos, que duravam vários meses, ela aproveitava os momentos disponíveis para participar de apresentações e shows de talentos da tripulação.
Os figurinos de dança do ventre estavam sempre presentes. Mesmo longe de casa, Natalie encontrava maneiras de continuar praticando e apresentando a arte que considerava sua grande paixão.
A dança como ponto de equilíbrio
Ao longo dos anos, a dança permaneceu como uma constante em sua vida. Natalie frequentou aulas com uma professora reconhecida internacionalmente e continuou aprimorando sua técnica.
Mais tarde, encontrou um novo relacionamento e passou por outro período de reconstrução. Trabalhou em escritório, deu aulas de gestão e manteve a dança como parte importante da rotina.
A chegada da pandemia trouxe novas mudanças. Com muitas atividades interrompidas, ela passou a trabalhar remotamente e continuou treinando, buscando na dança uma maneira de manter o equilíbrio.
Pouco tempo depois, a guerra em grande escala na Ucrânia trouxe mais uma ruptura. Nesse período, Natalie também perdeu o segundo namorado, vítima de um acidente de carro.
Recomeço na Suíça
Cerca de seis meses depois, Natalie se mudou para a Suíça acompanhada dos pais. No novo país, recebeu apoio destinado a refugiados ucranianos, incluindo moradia e estrutura para continuar praticando dança.
Ela também teve acesso a aulas oferecidas gratuitamente a mulheres ucranianas. Aos poucos, conseguiu reorganizar a vida e encontrou uma nova oportunidade profissional no aeroporto, onde trabalhou como embaixadora da Swarovski.
Com maior estabilidade financeira, voltou a investir ainda mais na dança. Criou novos figurinos e decidiu retornar às competições.
Reconhecimento em competições internacionais
A retomada levou Natalie a participar de competições em diferentes lugares. Na Ucrânia, teve contato novamente com bailarinas de alto nível. Depois, competiu em Londres, onde conquistou o terceiro lugar na categoria Rising Star.
Em Genebra, na Suíça, alcançou o segundo lugar na categoria profissional. A trajetória competitiva continua, com novos desafios e apresentações no horizonte.
Para Natalie, porém, os resultados não são o único objetivo. A dança representa principalmente uma maneira de encontrar alegria, energia, inspiração e renovação.
Um sonho em Winterthur
Vivendo em Winterthur, Natalie pretende levar essa experiência para outras mulheres. Seu principal projeto é criar uma comunidade feminina ligada à dança do ventre, reunindo mulheres, famílias e amigos em um ambiente de convivência e acolhimento.
A ideia não é necessariamente formar bailarinas profissionais ou incentivar a competição. O objetivo é proporcionar um espaço para aprender, se divertir, apresentar-se e compartilhar experiências por meio da arte.
Uma experiência no Brasil
Em fevereiro, Natalie viajou ao Brasil acompanhada de amigos de Londres. Durante a viagem, participou de cerimônias do Santo Daime nas proximidades de São Paulo.
Segundo seu relato, a experiência teve um significado pessoal importante. Ela afirma ter encontrado no período uma oportunidade de refletir sobre experiências dolorosas e de se conectar de maneira mais profunda consigo mesma e com outras pessoas.
A viagem também despertou uma forte ligação com o Brasil, país pelo qual diz ter se apaixonado.
Uma história de recomeços
Depois de enfrentar perdas pessoais, mudanças de país, dificuldades financeiras e os impactos de conflitos armados, Natalie mantém como objetivo compartilhar com outras pessoas a energia e a alegria que encontrou na dança e em sua trajetória.
Sua história é marcada por sucessivos recomeços. Em cada um deles, a dança permaneceu como um elemento de identidade e expressão.
Agora, vivendo na Suíça e preparando novos projetos, ela busca transformar essa experiência em algo coletivo: um espaço onde outras mulheres também possam encontrar na dança uma forma de expressão, convivência e alegria.



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