Quando nem a casa mais vigiada impede o crime
O caso de importunação sexual investigado no BBB 26 não é surpreendente. É revelador. Revela que vigilância não cria limite e que câmera ligada não substitui caráter.
A casa mais vigiada do Brasil escancarou o óbvio que insistimos em negar. Violência sexual não acontece apenas longe do olhar público. Acontece onde há tolerância. E tolerância não falta.
A lei é clara. Ato sexual sem consentimento é crime. Não importa o ambiente, o contexto ou a narrativa construída depois. Sem consentimento, não há debate. O resto é relativização conveniente.
O incômodo real está na reação social. Sempre surge alguém disposto a explicar o inexplicável, a suavizar o que a lei já endureceu. Como se o problema estivesse no enquadramento da câmera, não na conduta.
É aqui que o Estado entra. Não com discurso, mas com decisão. Em Paulínia, foi na gestão de Du Cazellato que a violência contra a mulher deixou de ser tema periférico e passou a ter estrutura permanente. A criação da Secretaria da Mulher não foi gesto simbólico. Foi escolha política. Foi reconhecer que o problema é contínuo e exige políticas públicas, orçamento e prioridade.
Na mesma linha, essa escolha se materializou em algo ainda mais concreto. Também foi durante seu mandato que se iniciou a criação da nova Delegacia de Defesa da Mulher, um projeto pensado para romper com o improviso histórico no atendimento às vítimas. Estrutura moderna, funcionamento 24 horas, ambientes mais acolhedores. Um avanço real para quem precisa denunciar em situação de vulnerabilidade. A delegacia foi concluída e inaugurada em 2025, com a presença do governador Tarcísio de Freitas, consolidando uma decisão tomada quando o tema ainda não rendia aplauso fácil.
Delegacia da Mulher não é privilégio. É resposta institucional a um problema estrutural. Crimes como importunação sexual raramente deixam provas materiais. O que quase sempre existe é o relato da vítima. E a diferença entre denunciar ou se calar passa, muitas vezes, pelo primeiro atendimento.
O BBB apenas jogou luz sobre o que acontece todos os dias fora das câmeras. A diferença é que, na vida real, quase nunca há replay.
Se nem a casa mais vigiada impede o crime, insistir em soluções superficiais é fingir que o problema é invisível. Não é. O problema é que ainda escolhemos não ver.
Ligue para 180 ( gratuito, 24 horas) ou procure o Dean(Delegacia de Atendimento á mulher.




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