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Sumaré,27/02/2026

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Quando a ciência toca o sagrado

Quando a ciência toca o sagrado

O Brasil acaba de provar que sabe fazer paraplégicos voltarem a andar. Falta agora aprender a não sabotar seus próprios gênios.

Após  25 anos de pesquisa rigorosa, silenciosa e obstinada, a cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveu a polilaminina, uma molécula capaz de estimular a regeneração da medula espinhal. Os primeiros testes clínicos em humanos, já autorizados pela Anvisa, apresentam resultados impressionantes, reacendendo uma esperança que até pouco tempo atrás, era roteiro de filme de  ficção científica.

É ciência aplicada devolvendo movimento, autonomia, dignidade.Enquanto o debate público grita, a ciência sussurra, e é nesse sussurro que nascem os verdadeiros milagres, aqueles que não dependem de fé, mas de método. Em tempos de gurus instantâneos, uma cientista brasileira levou 25 anos para produzir um resultado capaz de transformar milhões de vidas. Em uma era viciada em atalhos, Tatiana escolheu o caminho mais longo; estudo, persistência, rigor e silêncio.

Mas há algo além da ciência nesse feito.

Jesus foi um cientista das almas. Tatiana é cientista dos corpos. Independentemente de nossas crenças, ver um paraplégico voltar a andar provoca o mesmo assombro que nossos antepassados experimentaram há mais de dois mil anos, quando um peregrino curava pelo toque, pela palavra ou pela fé.Há algo de profundamente arquetípico nesse momento. Algo maior que religiões, culturas e séculos. Porque a cura, quando acontece, rompe a lógica do possível e toca o território do sagrado.

A ciência explica os mecanismos. A fé explica o sentido.

E talvez não sejam opostos, mas complementares.

A regeneração da medula espinhal não nega Deus. Para muitos, é justamente a manifestação mais concreta do divino: a inteligência humana a serviço do próximo, da vida. A cura, seja lá por qual caminho venha, sempre carrega um sopro de transcendência. Porque restaurar o movimento é também restaurar a dignidade, a autonomia, o projeto de existir.

Talvez seja isso que nos comova tanto.

Não é apenas alguém voltar a andar.

É a humanidade reaprendendo a acreditar.

Esse talvez seja o maior paradoxo brasileiro. Somos capazes de produzir ciência de ponta, mas insistimos em tratar educação e conhecimento como despesa, e não como investimento estratégico. Exportamos talentos e importamos soluções. Desvalorizamos laboratórios, mas choramos quando precisamos comprar tecnologia estrangeira a preços exorbitantes.O Brasil não sofre de falta de inteligência. Sofre de falta de prioridades, de compromisso com o país.

Se essa pesquisa tivesse nascido em Boston, estaria recebendo aportes de centenas de milhões. Tendo nascido na UFRJ, luta diariamente por financiamento, infraestrutura e continuidade. É o retrato de um país que, historicamente, prefere cortar da ciência para cobrir déficits de curto prazo, sem perceber que, ao fazê-lo, compromete seu próprio futuro.

Tatiana não é apenas uma cientista. Ela se transforma, inevitavelmente, em símbolo. Representa o Brasil que poderia ser, quando decide investir em educação, pesquisa e inovação em vez de idolatrar mediocridade. É a personificação de uma nação que aposta no conhecimento como projeto de desenvolvimento, soberania e dignidade social.Fazer pessoas voltarem a andar é extraordinário. Mas fazer um país inteiro caminhar rumo ao conhecimento ainda é nossa tarefa mais urgente.

Que a história de Tatiana Coelho de Sampaio não seja apenas mais uma notícia. Que seja um marco. Um ponto de inflexão. Um lembrete incômodo de que o Brasil só avançará quando decidir investir, com seriedade, em quem pensa, pesquisa e transforma.

Porque quando a ciência anda, a sociedade inteira avança.





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