Qual a culpa dos filhos?
Eles não tiveram tempo de errar.
Não tiveram tempo de aprender.
Não tiveram tempo de escolher quem queriam ser.
Tiveram apenas o tempo exato para pagar, com a própria vida, pelo colapso de um adulto.
Dias antes de matar os próprios filhos, um secretário municipal declarou publicamente que “família é o mais importante da vida”. A frase é bonita. Funciona bem em discursos, campanhas institucionais e postagens emocionadas nas redes sociais. Mas, quando não atravessada pela responsabilidade, torna-se apenas retórica vazia. Palavras não protegem. Intenções não salvam. Declarações públicas não impedem tragédias privadas.
A pergunta que permanece, incômoda e incontornável, é simples: qual a culpa dos filhos?
Que falha pode justificar que duas crianças paguem com a própria existência pelo esgotamento emocional, pela frustração ou pelo desespero de um adulto? Crianças não escolhem nascer. Não escolhem seus pais. Não escolhem o ambiente em que crescem. Ainda assim, são elas que, com frequência perturbadora, arcam com o preço mais alto das escolhas alheias.
Existe uma ilusão social perigosa de que ter filhos é um direito absoluto. Não é. É, antes de tudo, um compromisso moral irreversível. Um pacto silencioso que obriga o adulto a rever prioridades, conter impulsos, aprender a lidar com perdas, buscar ajuda quando a própria estrutura emocional começa a ruir. Ter filhos é aceitar, definitivamente, que a própria vida deixa de ser o centro.
O problema é que vivemos numa sociedade que forma adultos altamente treinados para performar, competir e aparentar sucesso, mas profundamente despreparados para lidar com frustração, limite e sofrimento. Cultivamos a estética da força permanente e terceirizamos o cuidado com a saúde mental. O resultado é um contingente crescente de adultos emocionalmente exaustos, solitários e fragilizados, tentando sustentar imagens de controle enquanto, por dentro, tudo desmorona.
Quando esse colapso encontra poder, armas ou acesso irrestrito àqueles que mais dependem, o desfecho pode ser trágico.
Dizer que família é o mais importante da vida exige coerência radical. Exige renúncia, maturidade e responsabilidade cotidiana. Amor não é discurso. É limite. É presença. É proteção. É, sobretudo, a capacidade de impedir que o próprio caos destrua quem ainda está aprendendo a viver.
Nenhuma criança deveria morrer para que um adulto silencie sua dor. Nenhuma infância deveria ser interrompida para encerrar um desespero que poderia ter sido cuidado, tratado, acolhido.
No fim, resta apenas o silêncio e a pergunta que se recusa a calar: qual a culpa dos filhos?




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